Recessão prolongada e proteccionismo entre as principais preocupações dos analistas de risco

Relatório do World Economic Forum identifica vários riscos a nível mundial nos próximos 18 meses decorrentes da pandemia do novo coronavírus. Especialistas ouvidos pelo JE dizem que as tendências são transversais a Portugal e alertam ainda para a necessidade de incorporar riscos ambientais como “prioridade”.

 

Recessão prolongada, perda de emprego, protecionismo e outro surto de doença infecciosa. São estas as principais preocupações a curto prazo que os analistas de risco identificam para os próximos 18 meses a nível mundial, segundo o relatório “Covid-19 Risks Outlook: a preliminary mapping and its implications”, do World Economic Forum.

O relatório publicado nesta terça-feira, apoiado pela consultora Marsh e da seguradora Zurich, identifica também entre os riscos de longo-prazo níveis elevados de desemprego, sobretudo junto dos jovens, falências e consolidação da indústria, falha na recuperação das indústrias e perturbação nas cadeias de abastecimento.

As dificuldades económicas e o descontentamento social que, segundo o relatório, irão aumentar nos próximos 18 meses a menos que líderes mundiais, empresas e decisores políticos trabalhem juntos para gerir as consequências da pandemia, são transversais às preocupações portuguesas, segundo os analistas.

“Os riscos são globais e estão totalmente interligados. Ou seja, mesmo que um risco seja mais provável de acontecer num determinado continente, há de certeza outros continentes que vão sentir os seus impactos”, diz Edgar Lopes, chief risk officer da Zurich Portugal ao Jornal Económico (JE). Aponta como outro exemplo o facto do novo coronavírus “ter começado por uma crise de saúde pública e de rapidamente se ter transformado numa crise económica e, muito provavelmente – veremos a médio prazo -, numa crise social”.

Fernando Chaves, especialista de risco da Marsh Portugal, realça ao JE que a economia portuguesa é altamente dependente da economia mundial está dependente de outros. “Perante um cenário de recessão nas maiores economias mundiais, o nosso país será naturalmente afetado. Quando mais de 50% das nossas exportações estão baseadas em mercados da União Europeia, também eles já fortemente impactados, é de esperar que as falências se façam sentir, em maior ou menor número e em todos os países, sendo também de prever redução nas carteiras de encomendas”, exemplifica.

Para o analista de risco, por outro lado, “as medidas protecionistas não se deverão fazer esperar e, procurando acautelar problemas nas cadeias de fornecimento, as empresas deverão igualmente procurar fornecedores dentro das suas fronteiras, de modo a precaverem-se contra potenciais novas ondas, que levem ao bloqueio ou fecho de fronteiras”.

No entanto, para Fernando Chaves a longo-prazo a confiança deverá retomar e Portugal recuperar o turismo. “Se continuarmos a evidenciar bons índices na resposta à pandemia, esses indicadores serão tomados como um fator positivo, a somar ao fator de segurança que já nos favorecia até aqui”, sustenta.

Considera que os empresários devem estar atentos a oportunidades de fusões e aquisições, “ainda que ponderando estrategicamente onde devem estar mais fortes nos próximos anos – se a nível nacional, europeu ou internacional”, mas adverte que as energias alternativas é também uma área-chave  para atrair e reter talento.

Riscos ambientais devem ser encarados como “prioritários”

As alterações climáticas há muito que entraram no radar das preocupações dos analistas de riscos e mesmo perante o atual contexto não deixam de aqui ter lugar. “A curto, médio e longo prazo temos de encarar as alterações climáticas e todos os riscos ambientais como prioritários. Sem cuidarmos do ambiente, não teremos sociedade nem economia”, refere Edgar Lopes, que defende que gerir o tema das alterações climáticas é também gerir a perda da biodiversidade “e diminuímos a probabilidade de surgirem novas pandemias como a que estamos a viver”.

“Procurar e implementar soluções sistémicas com pensamento de longo prazo são dois comportamentos que temos de adotar daqui para a frente”, diz.

O analista defende que a retoma económica deve ser pensada do ponto de vista da sustentabilidade do planeta. “Para isso, é necessário tomar algumas decisões, como por exemplo, desfavorecer a economia “castanha” ou “cinzenta” em prol de uma economia “verde”, circular e inclusiva”, indica.

“Os pacotes de estímulo à retoma económica, as reformas financeiras, os projetos público-privados e as eventuais novas leis desta retoma deverão incorporar políticas verdes, circulares e inclusivas, substituindo assim os subsídios perversos que subsistem”, considera, acrescentando que a diminuição das emissões de carbono nos setores que mais emitem e o cumprimento das metas ambientais “têm de ser a nossa prioridade”.

Para Fernando Chaves, no global “a mitigação de todos os riscos depende muito de saber avaliar a forma como se interconectam e não da análise individual”, pelo que o mundo pós-pandemia “não será o mesmo”. “As estratégias e ações adequadas não podem ser aquelas que levarão as empresas a voltar a ser o que eram, mas sim a adaptarem-se a uma nova realidade, a novos mercados, a novos clientes e fornecedores, a novas exigências, a novas formas de transacionar e a novas formas de competir. As que souberem reinventar-se sobreviverão”, vinca.

in Jornal Económico

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