Ela deixou tudo pelo planeta

Ela deixou tudo para defender o planeta

Trabalhou como advogada em Madrid, Londres e Nova Iorque. Desencantou-se com o Direito e em 2017 saiu da sua zona de conforto para contribuir para um mundo sustentável.

Nas muitas viagens que fez, observou os efeitos nefastos das alterações climáticas, mas o furacão Sandy, que devastou o estado de Nova Iorque em outubro de 2012, foi a “gota de água” para Joana Paredes Alves deixar tudo e passar a dedicar-se às causas ambientais e sociais. Hoje, é cofundadora da Aplanet, uma startup premiada, com presença em Espanha, Portugal e Brasil. Fundada em 2019, tem como missão levar a responsabilidade social à estratégia central das organizações através de soluções tecnológicas que permitem gerir, medir e reportar o seu impacto ambiental, social e económico.

Em menos de dois anos, a Aplanet foi distinguida pela Fundação Bill & Melinda Gates e pelo RW Institute como uma das tecnologias mais completas a nível mundial para a gestão da ação social, e pela Business Starter Acceleration como uma das startups mais inovadoras para o setor da energia em Espanha. Também teve outros reconhecimentos — já este ano, venceu o prémio do jornal Expansión para a melhor startup de 2020 em Espanha.

No infantário, Joana, de 38 anos, já dizia que queria ser advogada. Licenciou-se na Católica em 2005 e logo a seguir, para “alargar horizontes”, foi para Madrid. E depois para Londres, onde fez o mestrado, trabalhou num escritório de advogados e assistiu à crise financeira do subprime, em 2008. “Vi o pior acontecer à minha volta, a maior parte dos meus amigos foram despedidos e foi aí que comecei a questionar os princípios sobre os quais o nosso sistema assentava”, recorda à SÁBADO. Através do mesmo escritório de advogados, trabalhou os três anos seguintes em Lisboa, até ir para Nova Iorque, em 2012, convidada como investigadora de temas sobre a crise e o direito financeiro, na Universidade de Fordham.

Um mês após ter chegado, a cidade foi atingida pelo furacão Sandy e a advogada ficou sem casa durante dois meses, devido à subida do nível das águas no Sul de Manhattan. Não havia eletricidade e transportes, nem sítio onde ficar, e Joana refugiou-se em casas de amigos. “Pensávamos que uma cidade como Nova Iorque estaria preparada para tudo, mas não. O cenário era caótico. Aí, mudei o foco da investigação sobre a crise financeira para a necessidade de mudarmos para um sistema mais sustentável. Estava desencantada com o Direito e tinha a certeza de que me queria dedicar à sustentzbilidade, só não sabia como, porque na época ainda era uma área em que se trabalhava em regime pro bono”, conta. Entretanto, começou a contactar consultoras que estavam na linha da frente da estratégia climática e participou em feiras do carbono. “Em novembro de 2015, apanhei um avião e fui assistir à assinatura do Protocolo de Paris”, diz.

 

De mochila às costas

Filha de Joaquim Paredes Alves — falecido em 2015, um dos maiores empresários hoteleiros portugueses, com unidades em Portugal, Brasil e Angola, e vencedor de várias medalhas de ouro do turismo —, Joana começou cedo a viajar sozinha, de mochila às costas, pelos locais mais remotos. Em 2010, andou pela América do Sul durante quatro meses — partiu do Equador e terminou na Argentina “Tinha saído de um escritório de advogados e decidi fazer um reset à minha vida, para me desconstruir e conectar comigo mesma. Como sempre tive um espírito aventureiro e adoro estar em contacto com a natureza, fui.” Desde então, todos os anos faz uma viagem sozinha. Já esteve na América Central e do Norte, na Ásia e no Médio Oriente. E apanhou alguns sustos: foi roubada na Costa Rica e em Israel, e apanhou malária na Colômbia, enquanto andava pela selva, a caminho da Cidade Perdida: “Só tive sintomas 15 dias depois, já nas ilhas Galápagos, no Equador. Comecei a sentir- -me muito mal e dirigi-me a um hospital, de onde não me queriam deixar sair, mas eu lá arranjei maneira de regressar a Portugal. Há sempre solução para tudo.” Joana diz que nunca se sente insegura e que encara as aventuras como um desafio e não como uma ameaça. “Viajar sozinha deu-me imensa autoconfiança e resiliência.” Apaixonada por escalar montanhas, o que para ela é uma metáfora para a vida — “só temos de estar focados em chegar ao cume e dar um passo de cada vez” — subiu o Kilimanjaro, o ponto mais alto de África, na Tanzânia, em 2016. E mais uma vez sozinha. E não descansa enquanto não subir os outros Sete Cumes (as montanhas mais altas dos vários continentes).

Em 2017, ganhou coragem e mudou de vida. Deixou o Direito e foi para Denver, no Colorado, EUA, fazer o curso com o vice-presidente dos EUA Al Gore para ingressar no The Climate Reality Project e passar a dedicar- -se às alterações climáticas. Quando começou a trabalhar na área, percebeu que a sustentabilidade tinha de ser vista como um todo: “O foco não pode estar só na parte ambiental (emergência climática e biodiversidade), mas também na social (desigualdades e direitos humanos) e de govemance (ética e transparência)”. E confessa: “Apaixonei-me pela tecnologia ao serviço da sustentabilidade e pelo mundo das startups tecnológicas porque vi que havia mais inovação, agilidade e potencial para resolver problemas em concreto.”

 

Os desafios do Protocolo de Paris

Em 2018, a viver em Madrid há cerca de três anos, entrou para o mundo das startups ligadas à sustentabilidade. Num desses projetos, conheceu a espanhola Johanna Gallo, que trabalhava em tecnologia na Amazon, e o gestor francês Cyril Pierre. Fizeram um estudo de mercado sobre os desafios e as necessidades dos profissionais de sustentabilidade e das empresas, e no início de 2019 lançaram a Aplanei. Montaram uma equipa tecnológica em Madrid e na Índia, aliada a um grupo de especialistas em sustentabilidade em Espanha, Portugal e Brasil. Joana explica: “Desenvolvemos plataformas de software, que ajudam as empresas a gerir e monitorizar de forma mais eficiente a sua informação ambiental e social, de modo a poupar tempo e recursos para melhorar os seus impactos. Além das empresas, ajudamos universidades ou câmaras a envolverem os estudantes e cidadãos a participarem nas suas iniciativas ambientais e sociais através de uma app e assim medirem a sua contribuição para os objetivos de desenvolvimento sustentável das Nações Unidas.” E acrescenta: “Uma das missões da Aplanei é democratizar o acesso à tecnologia. O objetivo é que as pequenas e médias empresas sejam mais eficientes a conseguirem melhorar os seus impactos.”

Com sede em Espanha, a Aplanet tem escritórios em Madrid e Bilbau e uma forte presença em Lisboa e no Brasil. Líder nos mercados onde opera, tem na sua lista de clientes empresas e instituições como Banco de Portugal, EDP, Benfica, Grupo BNP Paribas, Montepio, Delloitte, Fujitsu, Leroy Merlin, Zurich, Câmara de Braga, Prefeitura do Rio de Janeiro, Ambev, Banco do Brasil, Globo ou Telefonica. Em 2019, Joana, que está a viver em Lisboa desde o início da pandemia, fez o curso de Sustalnability Leadership em Harvard.

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