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Informações, Notícias

Alergias: Está a chegar “o tempo delas”. Quando é altura de procurar ajuda?

É transversal a todas as faixas etárias, desde o recém-nascido ao idoso. Falamos de uma doença crónica, sem cura, mas com tratamento.

Levante o dedo quem já associou o aumento das temperaturas e o começo da primavera às queixas de alergias. Apesar de esta época ser pródiga na polinização das plantas, a verdade é que a doença alérgica está presente todo o ano e é perene. Na realidade, não faltam alergénios a causar incómodo e a rodear-nos no dia a dia, como os ácaros do pó, os ácaros de armazenamento, o pelo de cão e de gato e os fungos no interior das habitações.

Os pólenes são um dos grandes responsáveis pela rinite e, simultaneamente, pela conjuntivite. “A doença alérgica é normalmente hereditária e não tem cura”, começa por explicar Ana Morête, assistente hospitalar graduada de imunoalergologia e diretora de Serviço de Imunoalergologia no Centro Hospitalar do Baixo Vouga, Aveiro. A boa notícia é que é uma doença que tem controlo desde que seja devidamente diagnosticada e tratada.

A também vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica explica que “a doença alérgica constitui um padrão de resposta do nosso sistema imunológico e define um grupo de pessoas que, perante determinadas substâncias com as quais contacta, seja por via respiratória, gastrointestinal ou pela pele, vai reconhecê-las como estranhas e ter sintomas”.

A primavera pode representar um “agravamento da asma alérgica” e o contacto dos pólenes com a pele pode “exacerbar a dermatite atópica”, partilha a imunoalergologista. De igual modo, existem doentes com alergia alimentar a frutos frescos, resultante de uma sensibilização secundária, por reatividade cruzada a pólenes. Ana Morête acrescenta que “a maioria dos doentes alérgicos são polissensibilizados a vários alergénios”.

Estima-se que a prevalência de rinite seja de 24% a 27% nas crianças, 27% nos adolescentes, 26% nos adultos e 30% nos idosos. A asma afetará 700 mil portugueses e uma enorme percentagem, cerca de 20%, são crianças”, explica a imunoalergologista. Globalmente, até 1/4 da população portuguesa apresenta “alguma manifestação de doença alérgica e com uma evidência crescente de aumento de gravidade”.

Cerca de 60% da asma é alérgica e, nas crianças e no adulto jovem, a percentagem aumenta para 80 por cento. “A expressão da doença nos diferentes órgãos-alvo é variada ao longo da vida”, salienta Ana Morête. Outros dados são adiantados por Lígia Fernandes, médica pneumologista do Hospital Distrital da Figueira da Foz e coordenadora da Comissão de Alergologia Respiratória da Sociedade Portuguesa de Pneumologia, que indica que “quase 2/3 dos doentes com asma também têm rinite, e, por sua vez, os doentes com rinite têm quatro vezes mais risco de ter asma”.

Quando procurar ajuda?

Muitas vezes e, numa primeira abordagem, as pessoas com queixas e sintomas recorrem à medicina geral e familiar. Dois dos grandes problemas na doença alérgica respiratória são o elevado subdiagnóstico e a subavaliação/subvalorização, alerta Lígia Fernandes. “São muitíssimo prevalentes os casos de pessoas que vivem com lenços de papel ou com uma discreta tosse e que assumem isso com normalidade, o que de normal não tem nada. E isto acontece mesmo em crianças pequenas”, acrescenta. Preocupa-a aquilo que designa de “aceitação da limitação” e explica que as pessoas se habituam a viver assim.

Por outro lado, se a doença estiver devidamente controlada, a reatividade aos alergénios diminui. Perante sintomatologia diversa, a realização de testes cutâneos (testes por picada, intitulados de Prick) e/ou análises ao sangue pode ser o primeiro passo para o diagnóstico. “Doenças crónicas obrigam a tratamentos crónicos, mas plano nenhum funciona se não o pusermos em ação”, continua Lígia Fernandes. Uma pessoa que limite as suas atividades de lazer ou até o exercício físico deve ver isso como um sinal de alerta.

“É claro que os doentes graves e em situações extremas, como picos de calor e de frio, em que há previsões fora de comum [ou como aconteceu recentemente com a exposição a poeiras vindas de África], devem evitar algumas situações nesses dias em particular.” Mas essa será a exceção, não a regra.

Nos últimos 20 anos, o investimento global na doença respiratória tem melhorado muito, o que promove a existência de mais alternativas terapêuticas. “As medicações atuais são muito eficazes e temos a sorte de ter uma via aérea aberta ao exterior que permite a administração de fármacos em muito menor quantidade, de forma muito segura, com grande eficácia.”

De acordo com as mais recentes recomendações para o tratamento da asma, principalmente da doença “ligeira”, a pessoa deve ter um inalador que possa servir de manutenção (uso regular) e de SOS, o que pode facilitar a adesão à terapêutica e diminui o risco de crise, defende a pneumologista.

Todos os doentes com asma, a par com a sua medicação habitual, devem ter aquilo a que se chama de “plano escrito de ação” com indicação do que fazer e as alternativas em SOS que ajudam os doentes a “terem alguma autonomia e capacidade de autogestão da sua doença”.

Na Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica existe o Boletim Polínico, que é um serviço médico gratuito integrado na Rede Portuguesa de Aerobiologia. “Temos duas biólogas que semanalmente fazem as leituras polínicas nas principais capitais de distrito. Conseguimos que os nossos doentes tenham esta informação durante todo o ano”, explica Ana Morête. O doente alérgico pode assim consultar o Boletim Polínico que aponta o nível estimado de pólenes de cada semana, apresenta as condições de meteorologia e dá recomendações úteis.

“De uma forma geral, considero que a pandemia agravou a doença alérgica. A maioria dos doentes são alérgicos aos ácaros do pó que estão nas nossas habitações”, afirma a imunoalergologista. A asma controlada e ligeira não constituiu um fator de risco para a infeção por Covid-19. “Na maioria dos doentes não se registou uma maior gravidade perante a infeção”, acrescenta Ana Morête.

“Por outro lado, um dos benefícios que veio com a pandemia foi a utilização de máscara em sítios públicos e locais fechados, permitindo reduzir muito o contacto com a maioria dos outros vírus respiratórios.” Com a chegada da primavera, é de aproveitar a máscara para evitar não só os vírus como os pólenes.

Vacinar?

A imunoterapia específica (vulgarmente designada como “vacinas” para a doença alérgica) é “a única alternativa para mudar a forma de pensar do sistema imunológico e de responder aos alergénios”, explica a médica Ana Morête. E acrescenta: “Vai permitir reeducar o nosso sistema imunológico a tolerar os alergénios, o que não se traduz na cura da doença mas num controlo, normalmente com grande redução da necessidade de medicação e diminuição da probabilidade de ganhar novas sensibilizações, impedindo a evolução natural da doença alérgica.”

Lígia Fernandes corrobora e considera que este é “um investimento que vale a pena, pois há pessoas que deixam totalmente a medicação ou que passam de medicação muito frequente para medicação pontual”. Com efeito, “nas alergias já documentadas e na diminuição do risco para futuras sensibilizações”, a pneumologista lamenta o facto de a imunoterapia para a doença alérgica não ser amplamente comparticipada, o que pode restringir a decisão de algumas pessoas.

 

Fonte: https://visao.sapo.pt/visaosaude/2023-03-19-alergias-esta-a-chegar-o-tempo-delas-quando-e-altura-de-procurar-ajuda/

21 de Março, 2023/by A. Octávio Seguros
Tags: alergias, asma, chegada da primavera e as alergias, como controlar as alergias?, doença crónica, medicina geral, o que fazer em caso de crise alérgica?, pólen, primavera, SNS, tosse
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